sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Children of Men (2006)

Londres, 2027. Theo Faron (Clive Owen) é um funcionário discreto a viver numa sociedade em desagregação. Há mais de 18 anos que não nasce uma única criança no mundo inteiro. A Humanidade está a envelhecer mas não está a ficar mais calma. O mundo está repleto de enormes problemas sociais e a anarquia só é repelida por uma crescente opressão social.

Theo é contactado pela resistência através de uma velha conhecida, Julian (Julian Moore). Ela precisa de retirar uma pessoa da cidade (já não existe direito de circulação) e pede a Theo que fale com um primo, alguém bem colocado politicamente, para obter os respectivos papéis. Theo acha muito perigoso e recusa, apesar de Julian lhe oferecer 5.000 libras.

Apesar da sua primeira resposta, encontra-se com o primo que vive numa região isolada da cidade e consegue obter os papéis. A certificação de trânsito obriga-o a acompanhar a tal pessoa. Theo, pouco depois, descobre que essa pessoa, Kee (Claire Hope), é uma rapariga. Grávida.

A esterilidade da espécie humana pode ser interpretada como mais uma variante da vingança da Natureza. A Humanidade está a destruir o ecossistema terrestre, a esgotar os seus recursos e a multiplicar-se como um vírus que destrói o hospedeiro. Esta ideia radica na teoria de Gaia: a biosfera do planeta é um organismo. Como os outros organismos possui um sistema imunitário que entra em acção contra os elementos que o perigam. Gaia, na versão Némesis, encontra eventualmente uma forma de erradicar o problema homem. Um exemplo recente (se bem que falhado) é o filme de 2008 de Shyamalan, The Happening, onde são as plantas o veículo dessa resposta. Em outro filme recente, The Road baseado no livro de Cormac McCarthy, vê-se o depois de uma dessas catástrofes não explicada pela narrativa (a morte quase total da vida vegetal e animal enquanto alimento do homem é um pouco sobrenatural). Mais seminal, se bem que localizado numa vila, é a história contada em The Birds de Hitchcock.

Esta infertilidade mundial é um fenómeno mágico, sem explicação científica. Igualmente mágica parece ser a semente de uma nova era: a gravidez de Kee, uma jovem sozinha e inocente no seio daquele caos. A fuga a uma sociedade que ameaça o seu novo estatuto milagroso, possui reflexos no evento único da mitologia cristã que é o nascimento de Cristo. Para reforçar o paralelo, o filme tem uma cena desnecessária onde Theo descobre que Kee está grávida precisamente numa manjedoura...

Outra possibilidade de interpretação (não necessariamente oposta à primeira mas sim complementar) é ver no filme o resultado de uma dinâmica social falhada. O realizador torna bem nítida as diferenças sociais. Quando Theo contacta o corpo dirigente há uma brusca mudança estética, uma tensa acalmia rodeada num silêncio incómodo, o luxo ainda possível de uma civilização a findar, com o David Renascentista e o Guernica de Picasso (aqui, também a metáfora da destruição). Tudo isto, enquanto a imensa massa popular vagueia nas ruas entre a miséria, a apatia, o vandalismo e o terrorismo. Por fim, existe a guarda pretoriana de qualquer ditadura: as forças de segurança que separam os ricos dos pobres nesta crescente caminhada para a anarquia.

Considerando a dinâmica social actual, e o facto do filme se passar na Inglaterra, a terra do liberalismo, esta será uma crítica ao sistema capitalista. Há também uma forte mensagem sobre a imigração e as subsequentes respostas xenófobas ao problema. Se a esterilidade global é o motivo que avança a narrativa, a desagregação social é o pano de fundo que dá profundidade e grande valor crítico a este filme. Existem igualmente pistas sobre a questão da segurança e do preço a pagar por ela (como na cena a relembrar Abu Ghraib no Iraque)

Theo (do grego, deus) é o nosso anfitrião nesta caminhada por uma sociedade que se desintegra. Apesar da violência, ele mantém a esperança numa qualquer civilidade perdida. Comporta-se o melhor possível, dadas as circunstâncias. Há algo nele vindo de um passado que se recusa a morrer. Apesar de testemunhar os arbítrios e violência tanto do corpo dirigente como da força rebelde, recusa a violência, não usa armas, não se deixa contaminar totalmente. A sociedade não tem uma morte igualmente fácil em cada um de nós.

O filme é uma adaptação do realizador Alfonso Cuaron do livro distópico de P. D. James de 1992. Apesar de existem diferenças entre as duas obras, a escritora gostou do filme e disse-se orgulhosa por estar relacionada com o projecto.

Um dos melhores filmes Sci-Fi de 2000-2009.



Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0206634/

sábado, 22 de janeiro de 2011

The Killer Inside Me (2010)

O personagem principal deste filme é Lou Ford (Casey Affleck), um rapaz texano, polícia, ajudante de xerife, respeitado numa pequena sociedade do Texas no fim dos anos 40. Não possuindo grande personalidade nem aparente iniciativa, faz as pequenas tarefas policiais que lhe mandam numa cidade já de si com poucos problemas.

Existe uma prostituta a exercer ofício nos arredores da cidade, Joyce Lakeland (Jessica Alba), que ofende o verniz dos bons costumes da sociedade. Quando é enviado para a expulsar, Lou acaba por envolver-se com ela. A relação entre os dois possui traços sadomasoquistas, onde ele exerce o domínio. Adiante no filme, percebemos que esta tendência em Lou deriva de uma experiência sexual da sua pré-adolescência e que, de alguma forma, talvez pelo estatuto social de Joyce, deixa de ser reprimida, começando a desenvolver-se.

À medida que o filme se desenrola percebemos que Lou Ford está envolvido em pequenos esquemas semilegais. Num deles, o principal magnata da cidade, Chester Conway (Ned Beaty), pede-lhe ajuda para que o filho, amigo de infância de Lou, consiga livrar-se da amante, nada mais que a própria Joyce Lakeland. Também percebemos que o meio-irmão de Lou, morto há vários anos, num acidente de trabalho, pode ter sido assassinado a mando de Conway. Isto porque fora acusado e preso por pedofilia por violação de uma menina de seis anos e, uma vez cumprida a pena, voltara para trabalhar na cidade natal. Mesmo assim, Ford aceita ajudar o filho de Conway.

Também conhecemos a namorada de Ford, Amy Stanton (Kate Hudson), uma moça respeitada socialmente, e cujo noivado é eminente.

Uma vez apresentadas as principais personagens nos seus primeiros 30 minutos, o filme passa para a sequência central do filme: o encontro entre Lou, Joyce e o filho de Conway. Este novo acto é inesperado pela violência que retrata (para alguns excessiva mas discordo) desencadeando uma segunda parte mais negra.

[spoilers]

The Killer Inside Me é um thriller sobre o despontar da loucura. Lou Ford é um psicopata em potência que se leva, pela sua fraqueza de carácter, a uma situação onde é obrigado a matar duas pessoas que gostam dele: a amante e o amigo. A partir daí, porque a situação não foi reflectida, não houve um plano (e isto ainda antes da ciência do CSI) ou um álibi pensado, Ford tenta corrigir os seus erros com erros ainda maiores, entrando numa instável espiral de violência. É apenas a pacata natureza da comunidade (onde a boa educação e o respeito são virtudes que nunca se devem perder) e o seu próprio passado de rapaz calmo e pouco inteligente (num mundo que muda pouco, é suposto as pessoas mudarem pouco), que permite que as suas acções cheguem tão longe. Cada vez que Ford tenta reparar um problema, todos os estranhos à sua volta não lhe dão opções, tendo que sacrificar os amigos, aqueles que nele confiam. Só que estes acabam depressa.

O filme é baseado numa novela de 1952 de Jim Thompson que esteve igualmente envolvido nos scripts do The Killing e Paths of Glory ambos filmes de Kubrick. Kubrick referiu-se à novela deste modo: "probably the most chilling and believable first-person story of a criminally warped mind I have ever encountered". A novela fora já adaptada num filme homónimo de 1976 onde Lou Ford foi representado por Stacy Keach (Prison Break, ER).

Todo o filme passa-se na perspectiva de Lou Ford e, de certa forma, dentro da sua interpretação da realidade. Tudo parece suspeitar dele, o que não pode corresponder inteiramente à verdade, tendo em conta o que ele foi capaz de fazer antes de ser descoberto. As duas mulheres, a amante e a noiva, gostam demasiado dele (para alguém que parece não gostar muito delas), os homens ou confiam ou desconfiam em excesso. Não parece haver meio-termo na realidade vista pelos olhos de Ford. Talvez seja essa a razão pelo filme conseguir fazer o espectador manter alguma empatia por este personagem desprezível. Não conseguimos deixar de ser testemunhas da sua realidade.

Um reparo final para Simon Baker (o Patrick Jane do The Mentalist). A sua personagem, um polícia dos Assuntos Internos, é praticamente idêntica à do mentalista, demasiado moderna para a época. Quase parece ter viajado no tempo, 60 anos para o passado, para investigar os assassinatos deste filme...

Um bom filme de 2010 subvalorizado pelo público.


Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0954947/

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Valhalla Rising (2009)


These followers of the white Christ.
Bastards.
A much travelled man once told me that they eat their own God.
Eat his flesh, drink his blood.
Abominable.
One-Eye (Mads Mikkelsen) é um escravo de uma tribo de Vikings, durante o período de cristianização da Escandinávia (c. ano 1000 AD). É considerado tão perigoso que o tratam como o Hannibal Lecter, com correntes e amarrado por cordas, entre a sua jaula e o local do combate. Apenas um rapaz se aproxima dele, para lhe trazer comida, para o lavar e para desamarrá-lo antes da luta.
Sendo um excelente lutador, o chefe da tribo usa-o para ganhar dinheiro em lutas mortais, que One-Eye vence sempre.

Quando surge uma oportunidade, One-Eye consegue soltar-se e mata todos da escolta, excepto o rapaz que a partir daí o acompanha, sendo a sua voz no resto do filme (One Eye não fala, talvez seja mudo, talvez nada tenha para dizer).

Após um tempo de viagem, encontram um conjunto de Vikings cristãos que se preparam para viajar numa cruzada para a Terra Santa de Jerusalém. One Eye decide acompanhar o líder dos cruzados, seja pelas suas visões proféticas, seja pelas palavras que ouve:

We're more than flesh and blood.
More than revenge.
All of these things go.
You should consider your soul.
That's where the real pain lies.

O acto seguinte passa-se num barco, numa viagem mais mística que real. Por entre um nevoeiro infinito, onde o tempo, a fome e sede, o desespero atravessam os cruzados que se julgam já perdidos apesar da sua fé.

Finalmente, o barco sai do nevoeiro e chega a terra. Só que não é a Terra Prometida que se lhes depara, mas o Novo Mundo. E mesmo no Novo Mundo há erros antigos que sempre se podem repetir...

O realizador e argumentista dinamarquês Nicolas Winding Refn, depois do muito interessante Bronson, mais um vez releva-se como mais do que uma promessa do cinema do norte da Europa. Totalmente diferente de Bronson, Valhalla Rising é um filme fora do comum, silencioso, com imagens magníficas. A acção é lenta e demorada mas não aborrecida, há uma gestão do silêncio muito bem feita que destaca o pouco que é dito (o monólogo que começa este post é uma das maiores falas do filme). A Natureza e o mistério da fé são enormes, relegando os homens, miseráveis e ignorantes, à sua insignificância. O próprio personagem principal do filme não abre a boca uma única vez (bem, excepto quando é para morder adversários). As paisagens, repito, são belíssimas e acompanham de forma perfeita a travessia mais espiritual que geográfica de One Eye.





Valhalla Rising, na segunda parte do filme, faz-me lembrar Aguirre de Herzog na fotografia do The New World de Mallick. Inclui uma crítica à arrogância dos auto-proclamados arautos da cristandade (mais uma vez, como em Aguirre) e uma reflexão sobre as consequências do fanatismo. E tudo isto com Vikings! O que é possível querer mais de um filme?


Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0862467/

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

The Stepford Wives (1975)

The Stepford Wives é um filme híbrido Sci-Fi/Terror passado em ritmo lento num condomínio de luxo supostamente normal. O casal Eberhart está prestes a mudar-se do centro de NY para uma vivenda nos subúrbios, consequência da promoção do marido advogado.

Na primeira cena do filme vemos Joanna Eberhart (Katharine Ross), em silêncio, na casa já vazia. Um espelho que roda e pára na sua face.

Nos olhos alguma hesitação, mas segue-se um inspirar decidido. Fotógrafa, artista por natureza, já com os filhos e à espera do marido, sai do carro para tirar uma última foto a um rapaz que transporta um manequim feminino pela rua. Esta cena é um pequeno piscar de olhos ao tema do filme. Quando o pai chega, Walter Eberhart (Peter Masterson), o filho diz-lhe que viu um homem a carregar uma mulher nua, ao que o pai responde que é por isso que vão para Stepford.

Pouco depois de chegarem à nova casa Walter, no jardim, encontra a vizinha, uma perfeita dona de casa, Carol van Sant (Nanette Newman) que lhes oferece um bolo. Tudo perfeito se não fossem os olhos dela. À noite, Joanna não se mostra convencida com a mudança, apesar da casa maior, da aparente melhor vizinhança, do salário do marido. Parece recear um tédio que se avizinha. Ela não é uma dona de casa mas vê-se sem emprego e parada em casa.

Dias depois, na frente do supermercado, o casal vê a vizinha, van Sant, após um pequeno acidente de carro. A ambulância vem rapidamente e leva-a embora. Só que na direcção oposta ao hospital. Um detalhe que o casal não dá muita importância.

À noite, Joanna acorda sozinha na cama e desce até à sala onde está Walter sentado, com ar desolado. Foi a noite da sua entrada na associação de homens da vila (cuja entrada é reservada só para homens, facto que desagradou a ambos mas que não impediu Walter de nele ingressar). Há nitidamente algo que o olhar dele esconde.

De uma novela de Ira Levin (o primeiro livro de uma trilogia sobre Stepford), o mesmo que escreveu Rosemary's Baby e The Boys from Brazil, que também resultaram em dois bons filmes. O livro original foi adaptado ao cinema por William Goldman (All the President's Men, Marathon Man). Goldman pretendia que fosse uma comédia negra mas a realização final seguiu um rumo diferente (a meu ver, ainda bem). Mas alguém não se deve ter esquecido desta intenção porque o remake, com a Nicole Kidman, foi nesse sentido (não vi este remake, mas pela média e comentários no imdb, não deixou saudades).

A narrativa da comunidade local pacífica que esconde uma realidade terrível, por detrás do seu verniz de normalidade, tem sido usado múltiplas vezes. Por ser particularmente apropriado em seriados, pelo tempo de exposição lento que estes dispõem, foram realizadas várias séries nesta temática. Contam como exemplos o famoso Twin Peaks, The Prisioner ou o recente Happy Town cancelado abruptamente apesar de parecer promissor (e sacrificado à ininteligivel razão da televisão americana). O recente filme The White Ribbon de Michael Haneke é uma excelente exploração, no contexto histórico pré-grande guerra, das estranhas trajectórias das aldeias e dos seus micro-ditadores, sejam eles religiosos ou seculares, quando deixados isolados por muito tempo.

[spoilers] O filme tem igualmente uma forte conotação feminista. De como a subalternização da mulher ainda é possível, gerações passadas depois do esforço e sucesso do sufragismo, onde há decadas que a igualdade de direitos entre géneros está legalmente garantida. Para muitos, a mulher ainda é olhada como a fada (ler serva) do lar e, se a sociedade vai contra este desejo, são possíveis outros caminhos mais subtis para manter uma aproximação do anterior status quo. Neste filme é usada a substituição literal da mulher por um andróide física e sexualmente sofisticado, mas psicologicamente infantil. Uma metáfora da pressão psicológica (por vezes social), muito real, que leva à mesma domesticação de milhões de mulheres. Faz-me lembrar uma cena ocorrida no American Beauty: Allison Janney (a C.J. do West Wing) sentada, imóvel, em silêncio e no imaculado da sua sala, à espera que alguém chegasse. Um poderoso e terrível exemplo de uma pessoa em stand-by.

[spoilers] O tipo de andróides no The Stepford Wives são uma aproximação dos zombies filosóficos defendidos, mais recentemente, por David Chalmers. Seres sem actividade consciente que, apesar disso, são indistinguíveis de um ser humano normal (no caso do filme, isso não acontece totalmente). No Blade Runner ou na nova versão do Battlestar Galactica (obrigatória para um fã de Sci-Fi) este conceito vai tão longe que serve quase de refutação narrativa às experiências mentais de Chalmers (quem tiver interessado em refutações filosóficas, ler Daniel Dennett, por exemplo).

Sejam filosóficos ou não, naturais ou sobrenaturais, terrestres ou extraterrestres, os zombies e amigos correspondem à perda do que somos, à dissolução da nossa personalidade, da nossa mente, o que faz ser o eu. Desaparecemos quando somos substituídos por uma força exterior que se ocupa do nosso corpo, o mais íntimo espaço que temos, seja por doença, magia, possessão ou invasão de ETs. Este, porém, é um medo estranhamente próximo que enfrentamos sob a égide das doenças de Parkinson ou de Alzheimer. Seja como for, deixam-nos como alguém disse, o contrário de fantasmas: só os corpos permanecem.


Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0073747/

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Colossus (1970)

Colossus é um filme relativamente esquecido, do início da década de setenta, dentro da linha Skynet: o computador consciente que, após uns dois milissegundos de reflexão, descobre que os humanos são intelectualmente de uma pobreza franciscana e relativamente dispensáveis.
Ora, um computador pensante é um trabalho de assinalável engenharia e onde é possível falhar de um zilião de formas diferentes. Talvez por isso é que, sem grandes delongas, transferem para ele o controlo do arsenal nuclear para que ponha e disponha do destino da Humanidade. Como nos vários Terminator ou até no Dr.Strangelove de Kubrick, esta estratégia de acção não tende a correr lá muito bem para os personagens do respectivo filme.

Mas estou a adiantar-me.

O Dr. Charles Forbin (Eric Braeden), genial cientista americano, é responsável pelo projecto Colossus: a construção de um computador que faça a gestão do arsenal americano. Inicialmente o projecto era secreto mas, após a sua activação, o Presidente anuncia publicamente a sua existência garantido que agora os EUA e o mundo livre estão protegidos pela superior capacidade de análise e decisão de Colossus. Livre de emoções e inteiramente defensivo, o computador jamais seria capaz de iniciar um ataque aos comunistas mas, se atacado, responderia com eficiência inumana. O enorme sistema foi construído dentro de uma montanha e rodeado de inúmeros sistemas de segurança que garantem que ninguém o pode atacar nem sabotar.

Para ajudar à festa, o computador e o sistema que o suporta são totalmente auto-suficientes. Uma vez iniciado, as portas são fechadas não ficando ninguém dentro da montanha. A forma como comunica com os humanos é através de um centro de comando exterior (onde se desenrola a quase totalidade do filme). Isto é referido numa conferência de imprensa no início (cuja finalidade é expor as regras do jogo mental que se vai seguir). O Dr. Forbin assegura também que Colossus não é capaz de "pensamento independente", ou seja, não tem consciência. Mas é detentor de vasto conhecimento e pode aprender... A conferência termina com uma mensagem de optimismo, desejando uma nova era de paz e desenvolvimento. Toda a gente parece contente, apesar dos seus empregos terem-se tornado obsoletos (não esquecer: é um filme de ficção). O jogo do gato e do rato pode começar. Só falta determinar quem é o gato, o computador ou os humanos, apesar de não ser difícil adivinhar.

O mundo dos computadores é rápido e demora menos de um minuto até aparecer o primeiro problema. Existe um outro sistema. Colossus encontrou outro computador similar! Ah, e é Soviético. Chama-se Guardian, dizem os russos, e também só serve para fins defensivos.

Entretanto, ao mandar executar um protocolo que deveria demorar 1100 segundos, Colossus demora menos de 7. A aprendizagem e optimização do sistema, enquanto todos brindavam a um mundo sem problemas, estava já a desenrolar-se. Logo a seguir, Colossus pede (pede?) para estabelecer comunicação com o sistema adversário. Todos hesitam e evitam responder ao computador. Mas este insiste. Os humanos comandam que o pedido seja apagado e Colossus parece seguir a ordem. Porém, a curiosidade americana leva a melhor e abre-se um canal para os dois sistemas 'conversarem'. Segue-se uma cena muito interessante à lá Carl Sagan: para estabelecerem um protocolo de comunicação, uma linguagem comum, Colossus começa por enviar matemática trivial, a tabuada, e ao fim de uma hora está já a transmitir, a Guardian, teoria matemática até então desconhecida. Assustados, a equipa americana corta a ligação. E, a partir daqui, as coisas começam mesmo a derrapar...

Este filme é uma excelente digressão sobre as consequências da Inteligência Artificial, colocando a questão de forma muito directa: um computador consciente, com recursos suficientes, pode tornar-se milhares de vezes mais inteligente do que é possível com o cérebro do Homo Sapiens, um orgão que evoluiu para sobreviver na savana, não para compreender nem dominar a Natureza. O que nós fazemos com dificuldade, através da cultura, de uma aprendizagem prolongada, um sistema computacional poderia fazê-lo sem dificuldade e a uma velocidade milhões de vezes mais rápido. E não há complexos de paternidade, de origem, que nos protejam de uma mente assim.

O argumento é de James Bridges sendo baseado no primeiro livro de uma trilogia sobre o computador Colossus do inglês Dennnis Feltham Jones (Jones trabalhou na 2ª guerra mundial com computadores, conhecendo o Colossus, o sistema de desencriptação de Alan Turing e companhia em Bletchley Park).

Bridges foi autor de outro argumento de temática nuclear, The China Syndrome, filme famoso pelo impacto na política americana anti-nuclear muito graças ao activismo da actriz Jane Fonda que participou nesse filme, e cuja estreia em Março de 1979 ocorreu pouco antes do desastre nuclear de Three Mile Island.

Imagino que Colossus deverá, em parte, a sua existência ao sucesso de 2001. Também nesse filme o computador, o famoso HAL (a melhor luz vermelha do cinema), é igualmente a personagem central do enredo. HAL sofre uma patologia psicológica que faz divergir as suas 'emoções' para o assassinato da tripulação. Isso não acontece ao Colossus: ele limita-se a seguir uma inexorável lógica utilitária, desprovida de emoções humanas, sim, mas ninguém o pode criticar por isso: ele afinal não é humano.

Está a ser preparado um remake (infelizmente...). Citando a IGN.com:
Will Smith is set to collaborate with director Ron Howard on the forthcoming sci-fi feature The Forbin Project. According to Deadline, the film is a "contemporary Frankenstein story about the world's first sentient computer and the misunderstood genius who gains power over the world because of it." [...] Screenwriter James Rothenberg is apparently adapting, which will make him a busy man as he's just signed up to write a big-screen adaption of The Twilight Zone.
Este género de filmes encerra uma clara analogia à tensão diplomática da guerra fria, quando um conjunto mais ou menos discreto de cargos militares e políticos tinham, nas suas mãos, a destruição nuclear do nosso ecossistema. Felizmente, já vinte anos decorridos do seu término, as coisas não correram assim tão mal.

Moral desta(s) história(s)?
(c) Walt Kelly