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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Z.P.G. (1972)

Num futuro não muito distante, a população humana chegou a limites incomportáveis. O ambiente está praticamente destruído, existe um smog pesadíssimo sobre as cidades, a maioria das espécies estão extintas, o alimento é racionado. O regime político mundial tomou a decisão de proibir o nascimento de bebés durante 25 anos para conter o crescimento populacional.

Três anos se passam. Ter bebés tornou-se o pior crime social. Para conter os problemas sociais e psicológicos, o sistema providencia crianças robots às mulheres mais novas. Estes robots possuem alguma capacidade vocal e motora, chamando pela mãe, pedido afecto e até sendo capazes de simular doenças.

Para além disso, cada casa, em pelo menos uma das suas paredes, permite que o sistema político tenha acesso ao interior para falar com quem lá habita. Isto ajuda a um maior controlo e monitorização do estado mental dos cidadãos, nomeadamente às mulheres que sofrem com a política de crescimento negativo. O filme mostra como é comum o uso de técnicas de lavagem cerebral para forçar a mulheres a seguir o seu papel de mães fictícias em relação às crianças robot.

Carol McNeil (Geraldine Chaplin: The Age of Innocence, Hable con Ella, The Wolfman) vive uma vida normalizada. Trabalha com o marido, Russ McNeil (Oliver Reed: The Devils, The House of Usher, Gladiator) e com um casal vizinho, no museu do século XX onde recriam cenas familiares da década de 70 (e onde se podem ver raros exemplares de plantas e muitos animais embalsamados).

Carol tem um desejo muito forte de ter um bebé. Apesar de tudo o que lhe dizem ao contrário, apesar do perigo de morte que esse acto enfrenta, apesar da aparente indiferença do marido. Carol não consegue admitir a derrota que o seu pai, um antigo pediatra, demonstra: "If this is living, I'm alive"

This is your only reality

Z.P.G. significa Zero Population Growth (na verdade, sem nascimentos, a população começaria a decrescer rapidamente) e é um filme distópico muito subvalorizado e quase esquecido. O argumento foca problemas relacionados não muito distantes da nossa própria realidade: o crescimento populacional e a questão da poluição e destruição dos recursos naturais. Na questão do controle de natalidade, o filme antecipou a medida aplicada desde 1978, na China, à restrição de nascimentos. Se bem que o primeiro problema era muito pior da década de 1970, já que o crescimento populacional está a decrescer, a questão dos recursos naturais continua muito actual, infelizmente. A resposta sugerida no filme tem a ver com uma atmosfera irrespirável, mas hoje pensa-se que os maiores problemas virão do aquecimento generalizado que o planeta está a sofrer e cujas consequências não se conseguem prever (e como só temos um ecossistema, talvez não devêssemos brincar muito com a sua dinâmica).

Há quem veja ligações entre este filme e o posterior Logan's Run, como se se passassem na mesma realidade: o sistema social falido, um ecossistema destruído, e pessoas a tentar encontrar-se entre a limitada liberdade que conseguem criar. Na minha opinião, Z.P.G. é um pouco melhor que Logan's Run mas a sua fama é muito menor. Em relação ao top distópico que fiz recentemente (só descobri Z.P.G. depois de a fazer) colocaria este filme no segundo terço da lista.

[spoilers]

A meio do filme, quando o bebé nasce e é descoberto pelo casal amigo, o enredo muda de foco para o conflito entre as duas mulheres, uma mãe contra uma mulher que sofre uma intensa depressão pela falta de filhos e que vê nesta situação uma oportunidade de recuperar a sua sanidade. Esta tensão psicológica, que relega o tecido social para segundo plano até quase ao fim do filme, aumenta o interesse e valor do filme. No fim do filme, o casal McNeil consegue fugir da aplicação da pena de morte, dado que o seu crime é descoberto, e foge para o que parece ser uma terra de ninguém. Ao mesmo tempo desolado (como se tivesse ocorrido, há muito tempo, uma guerra nuclear) mas também portador de alguma esperança, já que se percebe que o sistema ditatorial deve ter como âmbito o domínio das cidades, e onde eles terminam até a atmosfera é respirável. Como resposta ao psicólogo, Carol poderia dizer: "There are other realities".

Mais um bom exemplo da excelente década para a SciFi que foram os anos 70.



Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0069530/

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Filmes Imaginários: A Nave Invencível

Este é o início de uma secção sobre livros de SciFi que nunca foram adaptados a cinema mas que poderiam resultar em excelentes filmes. A relação entre romances e cinema nos géneros do terror e da ficção científica é já muito antiga. Frankenstein de 1910, Dr. Jekyll and Mr. Hyde de 1912 ou o Golem de 1915 são os primeiros exemplos mais famosos. Pelo menos estes estão livres da camisa de forças cultural que é o copyright e podem ser vistos (aqui, aqui e aqui).

Frankenstein de 1910

Muitos autores seminais do género, como Edgar Allen Poe ou Lovecraft, Mary Shelley ou Bram Stoker, têm sido adaptados repetidamente para filme. O mesmo aconteceu na SciFi, desde os clássicos de Júlio Verne ou H.G.Wells. Alguns autores têm sido muito adaptados, em detrimento de outros, havendo uma forte tendência na escolha de autores de língua inglesa.

Stanislaw Lem é um autor polaco de SciFi, cuja maior parte da sua obra decorreu entre os anos 60 e 80. Autor de excelentes histórias, a mais conhecida é Solaris, duplamente adaptada ao cinema por Andrei Tarkovsky e Steven Soderberg. Os enredos de Lem focam principalmente as questões do conhecimento e da comunicação entre diferentes espécies inteligentes (até em Solaris é esse o tema de fundo, onde a trama se desenvolve). Normalmente, Lem é pessimista. Ele considerava que demasiado nos separa para que uma comunicação efectiva, com algum significado, se estabeleça. Um livro exemplar desta dificuldade é Fiasco, uma das suas últimas obras de ficção (e publicada pela Europa-América na colecção Nébula).

Stanislaw Lem

Mas, se exceptuarmos a Polónia, Lem não tem servido de inspiração para cineastas. Há uma série alemã sobre as aventuras de Ijon Tichy, as referidas adaptações de Solaris e praticamente mais nada. Um dos livros que melhor se adaptaria ao cinema é "Niezwyciezony", conhecido aqui como "A Nave Invencível" título da edição portuguesa da colecção Argonauta (nº264).

Claro que os posts desta secção são apenas um motivo para vos levar a ler os respectivos livros. Mas talvez vos convença que, se bem feito, esta história daria um excelente filme de SciFi. Se Lem em vez de polaco fosse americano, creio que já teríamos uma adaptação para livro (e eventual remake). Injusto, mas as coisas são como são...

O romance começa com um cruzador de guerra terrestre a aterrar no planeta Regis III . O objectivo da missão é investigar o desaparecimento da sua nave irmã, Condor. O planeta parece desabitado, deserto, sem vida, o que adensa o mistério. As naves em questão são extremamente poderosas e, se fosse um inimigo a razão da sua destruição, este teria de ser muitíssimo perigoso.

No decorrer do livro a tripulação percebe que existe, de facto, um perigo à superfície do planeta. Só que não é vivo, nem é propriamente um inimigo. O planeta está infectado por enxames de nano-máquinas que destroem tudo o que se lhes depara à frente. E à sua frente encontra-se uma nave invencível para derrotar. A segunda.

O livro discute a questão da nanotecnologia, em 1964, antecipando em muito, na ficção, este tema tecnológico. Hoje em dia é comum encontrar nanotecnologia em filmes e romance. Por exemplo, o remake do The Day The Earth Stood Still usa enxames de nano-máquinas como arma de destruição, outros filmes recentes são I, Robot, Doom ou Terminator 3. Nos romances, talvez o mais conhecido seja Prey de Michael Crichton, havendo também o The Diamond Age do escritor cyberpunk, Neal Stephenson. O jogo de computador Crysis usa bastante este conceito. Mas pouco ou nada disto se falava em 1964.

Lem discute a possibilidade do planeta ter assistido ao que, hoje em dia, se chama uma Singularidade Tecnológica. Normalmente imagina-se esta situação com o advento de uma inteligência artificial mais inteligente que o Homem. Esta IA é então capaz de criar outra IA ainda melhor, e assim sucessivamente, até que a Humanidade perde totalmente o controlo da situação e é ultrapassado por uma gama de acontecimentos exponencialmente mais rápidos (e provavelmente acaba mal). Mas existe a possibilidade de isto ocorrer através de robots tão simples como bactérias. Este processos também podem ultrapassar os seus criadores orgânicos, porque possuem a capacidade de auto-replicação e podem, supõe-se, evoluir de forma Lamarckiana, ou seja, usando a experiência como padrão para criar a próxima geração.
Isto significa que a evolução natural é acelerada milhões de vezes, tendo uma quase ilimitada capacidade de adaptação. E essa característica pode permitir vencer a batalha contra os seus criadores, até contra robots maiores e individualmente mais poderosos. Como vencer um vírus que, em comunicando com os seus vizinhos, decide como evoluir?

Ambas as situações são exemplos da Lei das Consequências não Antecipadas, que basicamente diz ser impossível prever os eventos produzidos por um sistema suficientemente complexo. Um filme que usa esta temática é o Jurassic Park de Spielberg (adaptado de um outro livro de Crichton).

A questão da auto-replicação mecânica é um assunto estudado desde o trabalho de John von Neumann sobre autómatos replicantes na década de 40, e tem dado pequenos passos desde então. Uma das possibilidades para a futura exploração espacial seria enviar sondas para outros sistemas solares e, quando lá chegassem, criariam, a partir dos recursos locais, cópias de si mesmas para serem enviadas para os sistemas vizinhos. Desta forma, dado suficiente tempo, poderia ser possível explorar a galáxia com impacto económico mínimo.

Mas voltando ao livro. Num dos capítulos mais cinematográficos, o comandante da nave decide enviar a sua unidade de combate mais poderosa para lutar contra o enxame, o enorme robot de guerra, Ciclope, com praticamente ilimitado poder de fogo (mas não suficiente, suspeito, para derrotar a situação financeira portuguesa).


Quando o enxame detecta Ciclope, começa uma batalha de enormes proporções. O robot é capaz de destruir biliões de unidades individuais, mas os tripulantes da nave observam com apreensão o aparecimento de nuvens e nuvens de mais nano-máquinas. São triliões e triliões de unidades individuais que sobrecarregam as armas de Ciclope até ele se descontrolar e tornar-se caótico, pondo em perigo até a integridade da própria nave, que se vê obrigada a destruí-lo (aqui há traços literários do velho monstro Frankenstein e de como a tecnologia se pode virar contra o seu criador).

Por fim, a tripulação percebe que este inimigo não é um inimigo. O que eles estiveram a lutar foi contra o actual ecossistema do planeta e que, assim, aquela luta não tinha qualquer sentido. No Moby Dick, Herman Melville diz-nos que não faz sentido uma pessoa vingar-se de um animal. O mesmo se pode dizer de um enxame.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Sunshine (2007)

Danny Boyle é um realizador muito versátil. O seu primeiro filme para cinema, Shallow Grave, é um Thriller sólido que aconselho, apesar de caído um pouco no esquecimento. O seu segundo filme é o fabuloso Trainspotting que tenho alguma dificuldade em situar (somente comédia deixa algo por dizer). Ele fez um filme de terror que marcou os zombies da década de 2000, 28 Days Later, ao tornar central o conceito de zombies a correr, uma ideia brilhante que causou impacto nos filmes do género que se seguiram como o belo remake do Dawn of the Dead (por este filme, a gente perdoa até os mochos do Zack Snider) ou a recente série The Walking Dead. Há filmes anteriores que mostram zombies a correr, mas creio que foi o 28 Days que demonstrou definitivamente o potencial da ideia. Bem, mas já estou a perder-me nos zombies. Voltando ao Boyle, a sua carreira ganhou prestígio mundial com o Óscar para o Slumdog Millionaire, outro filme que não tem nada a ver com a sua filmografia anterior. Mas anterior ao Slumdog, Boyle realizou um filme de SciFi: Sunshine.

Argumento deste filme: o nosso Sol, por algum motivo cósmico, começou a perder potência e está a produzir cada vez menos calor. A Humanidade está ameaçada de extinção pelo frio e decide reagir, enviando uma nave até à sua superfície. Esta nave transporta uma enorme bomba nuclear capaz, segundo a teoria xpto vigente, de reactivar o processo de fusão nuclear solar. A explosão fará com que a nossa estrela volte ao seu ciclo normal salvando, assim, a vida na Terra.

Uma primeira nave, Icarus (uma metáfora apropriada, considerando a situação), foi enviada há sete anos atrás. No entanto, a tripulação falhou a missão mas nada se sabe sobre o que aconteceu. Um dos motivos é que, a partir de uma certa distância, a radiação solar é tão forte que interfere e impede as comunicações com a Terra (eles chamam-lhe a Zona Morta). Desta forma, as nações terrestres juntaram-se, e num esforço último (minando o restante material físsil ainda existente à superfície da Terra) constroem uma segunda nave, Icarus II, para uma derradeira missão. Se a nova tripulação falhar, a Terra está condenada.

O filme segue o destino da tripulação do Icarus II. Começamos o filme no momento em que a nave está prestes a entrar na Zona Morta, e estão a ultimar-se as mensagens finais para familiares e amigos.

Searle (Cliff Curtis: Bringing Out the Dead, Virus, The Fountain), o psicólogo da equipe, está a admirar o Sol numa das janelas da nave. O computador diz-lhe que o filtro apenas deixa passar 2% da luminosidade real da estrela. Searle está fascinado com o impacto da luz e pede ao sistema para deixar passar o limite máximo de luz que não cause perigo de cegueira (que é 3.1%). E nesse momento, o filme mostra-nos habilmente um pouco da força de uma estrela moribunda ainda a uma distância de 50 milhões de quilómetros.


A tripulação é composta por oito membros e observamos um pouco do seu dia-a-dia, a forma como se relacionam e a estrutura hierárquica de poder. A nave é muito alongada e está protegida por um enorme disco refletor que protege a sua integridade contra o calor e a força do vento solar. Nesse mesmo disco, encontra-se o material explosivo e o sistema de ignição da bomba. A nave também possui uma estufa para produção de oxigénio e algum alimento para manter vivos os tripulantes até que possam voltar para a Terra.

Há um momento belíssimo (eu sou da geração do Cosmos...) quando a tripulação se junta para ver o trânsito de Mercúrio. É mais uma oportunidade para tentarmos intuir a dimensão real do nosso Sol, como ele torna anões até os planetas do sistema solar, mesmo quando estão bastante mais perto de nós. É um momento muito bem acompanhado com a música do inglês John Murphy, o responsável pela banda sonora (com trabalhos em vários filmes de Boyle como para filmes do Guy Ritchie).

sim, a bolinha preta é Mercúrio, um planeta com 5000 Km de diâmetro
e massa de 33.000.000.000 triliões de toneladas

Mas o inesperado acontece quando, ao passar pela superfície de Mercúrio, descobrem um vestígio da Icarus I. Cabe agora à tripulação a resolução de um dilema: mudam a sua trajectória para ir ao encontro da nave irmã, ou seguem a rota original como se nada se passasse? A tripulação olha para Robert Capa (Cillian Murphy: 28 Days Later, The Dark Knight, Inception), o físico da nave à procura de uma resposta...

Sunshine é um dos meus filmes preferidos de SciFi desta última década. Apesar de partir de uma premissa sem sentido em termos físicos: a actividade nuclear do Sol ocorre no seu núcleo, a centenas de milhar de quilómetros de distância da sua superfície, onde a explosão nuclear iria ocorrer. É totalmente impossível que uma missão destas tivesse qualquer tipo de sucesso, excepto se a missão fosse realizar o fogo de artifício mais discreto e caro da História. Mas enfim, é a premissa inicial do filme e é suposto ao espectador assumir estas premissas iniciais. Há muitos filmes que se esquecem deste acordo implícito, e metem à pressão, seja no meio seja no fim, uma série de esquemas manhosos para avançar a acção ou salvar os heróis. Confesso que tenho alergia a oráculos e deus ex machina como ferramentas de narrativa e, isso, o argumento evita.

O filme consegue manter uma tensão psicológica desde quase o início até ao fim. Observamos como um conjunto de pessoas muito racional e psicologicamente estável (excepto Capa) podem ceder perante a pressão do inesperado. O Sol é ambivalente: por um lado é a salvação da Humanidade mas, por outro, é também o perigo último e constante à fragilidade da tripulação. Os Homens não foram feitos para se aproximar de tamanha violência por mais tecnologia que os proteja. Quem ousa fazê-lo correrá sempre o risco de ser inapelavelmente destruído.

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Quem já viu o filme, sabe que a Icarus I é habitada ainda por Pinbacker (Mark Strong: Syriana, RocknRolla, Kick-Ass) que foi capaz de sobreviver, graças à estufa da nave, a sete anos de solidão. A entrada em cena de Pinbacker transforma Sunshine num filme de terror, quase eclipsando a missão da nave, para nos centrar na sobrevivência da tripulação perante um serial-killer motivado por ilusões messiânicas. Esta personagem mostra-nos a importância dos outros. A noção de pessoa é um conceito social, sem sociedade não haveriam pessoas. Uma pessoa mais isolada, como uma comunidade numa ilha, tende a divergir do normal pela falta das constantes sincronizações, necessárias a essa normalização (com tudo o que de bom e de mau que isto implique). Uma pessoa totalmente isolada, como Pinbacker, por tanto tempo, diverge totalmente. Para lutar contra o perigo real de dissolução (o perigo de deixar de ser pessoa) é possível responder com a criação de um pseudo-social -- habitado por personas virtuais, por deuses ou amigos imaginários -- que compensa a falta de estímulo exterior e independente. Mas o preço a pagar para evitar a dissolução é a fragmentação, e ninguém fica incólume em qualquer um destes processos.

O filme transmite bem o inóspito do espaço exterior e do espaço interior, quão belos e perigosos podem ser ao mesmo tempo. Como um pôr-do-sol numa ilha deserta.


Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0448134/

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Moon (2009)

O astronauta Sam Bell (Sam Rockwell: The Assassination of Jesse James, Heist, The Green Mile) encontra-se estacionado na Lua. Sozinho, num contracto privado de três anos pela Lunar Industries, mantém em funcionamento uma estação de recolha de Helium 3, o novo petróleo do século XXI.

A estação é praticamente automática e é gerida por um computador, GERTY (voz de Kevin Spacey: Se7en, American Beauty). Sam está lá para lidar com situações exteriores (os robots não parecem estar muito desenvolvidos) nomeadamente na recolha do He3 das máquinas que o extraem do solo lunar.


O trabalho de Sam é crítico mas com a repetição e o acumular do tédio, ele torna-se desatento, passa demasiado tempo em piloto automático. Os únicos momentos de contacto emocional ocorrem quando fala com a sua mulher Tess (Dominique McElligott) por videoconferência, mas mesmo assim em diferido, devido a uma avaria nos satélites de comunicação que impedem um diálogo entre os dois (situação que a companhia não parece muito interessada em resolver). Sam consegue lutar um pouco contra uma eventual situação depressiva por já faltar poucas semanas para o fim do contrato. GERTY é uma presença constante no dia-a-dia de Sam, sendo um pouco supervisor, colega e amigo.

Entretanto, o sistema avisa-o que uma das máquinas avariou-se e é necessário ir ao local resolver o problema. Só que Sam acaba por provocar um acidente e vê-se preso no meio da superfície lunar.



Fade out. Fade in.

Sam está de volta à estação lunar, deitado, ainda inconsciente. Quando acorda, GERTY informa-o de um acidente, mas ele diz-se amnésico. Como chegou ali?

Duncan Jones escreveu e realizou este excelente filme de Sci-Fi. Para mim, Moon, está no meu Top 10 de SciFi desta primeira década (bem, talvez não seja preciso muito para estar lá, mas possivelmente está no Top 5). Considerando o facto que é o seu primeiro filme, deixa-nos com grande expectativa para a sua próxima realização do género, o filme Source Code a estrear em 2011 (cf. trailer).

Moon é um filme de meios de produção relativamente simples. O orçamento de 5 milhões, em 2009, é quase nada para Hollywood. Infelizmente, só fez 10 milhões nos cinemas, o que também é quase nada e, a meu ver, é completamente inexplicável. O filme é Sam Rockwell, comprovando a sua qualidade de actor, sendo bem coadjuvado pela voz de Spacey. A banda sonora de Clint Mansell é competente apesar de estar a anos-luz das suas incriveis bandas sonoras para os filmes The Fountain e Requiem for a Dream ambos de Darren Aronofsky. Os efeitos especiais são muito seguros, muito contidos, mas muito bonitos. Nunca se viu uma superfície lunar tão bela.

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Já nos assuntos que toca, Moon é muito interessante.

O principal assunto do filme, a meu ver, é a questão dupla da personalidade e da identidade. A questão dos clones força-nos a reflectir sobre o que é ser eu, o que fundamentalmente podemos dizer que é único em nós. Dois clones possuem o mesmo ADN (ok, também os gémeos monozigóticos). Mas neste filme, os clones possuem a mesma personalidade e as mesmas memórias referentes a um dado momento da sua história pessoal. Quando Sam4 (o Sam do início do filme) acordou, ele era igual ao Sam5 quando este acordou. Aqui a coisa fia mais fino. O que faz a diferença entre Sam4, Sam5 e o Sam1, o Sam original? É verdade que foi o Sam1 que casou com Tess, que experimentou as memórias que os clones partilham, que foi formado e recebeu treino de astronauta. Mas alguém não pode ter menos direitos, ser considerado inferior, meramente pela qualidade das suas memórias. Que garantias temos nós da qualidade das nossas? É sabido que as memórias são uma ficção continuamente trabalhada pela mente, e o que achamos ter vivido vai perdendo correspondência com que aconteceu de facto. A nossa memória é, em si, um teatro, uma ficção trabalhada pela mente para limar os defeitos e derrotas e fazer sobressair virtudes e vitórias. Não podemos definir um ente consciente e racional (e os clones de seres humanos são seres humanos) pelo seu passado mas sim pelas suas capacidades cognitivas. O principal filme que foca esta questão é, claro, Blade Runner (onde a igualmente pequena esperança de vida dos andróides faz também aí reforçar esta problemática).

A empresa do filme, mantém em regime de escravidão, um conjunto de pessoas que partilham uma personalidade inicial. Faz-me lembrar a velhinha Wesley-Yutani mas trocando os aliens por clones (o Ridley Scott está por todo o lado!). Esta actividade, nos ecos do fim do filme, percebe-se que é ilegal levando a empresa a defender-se legalmente e a perder dinheiro. A experiência que esta actividade igualmente imoral nos dá, é observar como a nossa ideia de personalidade é fluida. Gostamos de nos ver como um bloco mais ou menos constante que atravessa a vida. Mas, é muito provável que deixássemos de pensar assim se pudéssemos falar com nós próprios há 10 ou 20 anos atrás. Sam4 é irascível, está cansado, perdeu toda a paciência que Sam5, mesmo agora renascido, possui. As condições externas -- principalmente a solidão que Sam4 carrega -- mudam-nos, por vezes, de uma forma brusca e violenta. Uma pessoa não é tanto função de uma invariante psicológica mas sim de uma trajectória que evolui com o tempo e com as circunstâncias. E, creio, o filme cria-nos uma situação para que possamos presenciar isso mesmo.

Falta GERTY. Este software, e qualquer outro no universo dos filmes, terá sempre de viver à sombra do conhecido HAL 9000 (este filme faz-nos lembrar 2001 por isso, como pela solidão, perigo e indiferença do espaço). Mas neste caso, GERTY é o psicólogo que não se torna o psicopata de serviço. GERTY parece possuir emoções esquemáticas, deixando-se convencer por Sam em ultrapassar alguns dos protocolos que era suposto obedecer. GERTY toma a decisão de acordar a versão seguinte de Sam, Sam5, mas o filme não fornece informação suficiente para explicar essa iniciativa. GERTY parece estar a justificar-se à central quando Sam5 quase o surpreende. Lembrar que Sam acha que é impossível comunicar directamente com a terra por avaria dos satélites, e qualquer comunicação entre o GERTY e a empresa é um acto perigoso para a estabilidade emocional do clone de serviço. Ou seja, é admissível que GERTY tenha desenvolvido uma ligação emocional com os diversos clones que acompanha. Se Sam4 era o 4º clone, então este processo já teria, pelo menos, 12 anos (e o serão 12 anos para uma máquina que realiza ziliões de operações por segundo?). Quando Sam5 combina com GERTY que irá reiniciar a sua programação, para GERTY não se lembrar do que aconteceu (e não se ver forçado a dizer o que aconteceu), GERTY não discorda, aceita que é um passo necessário para que o seu amigo seja salvo. GERTY diz-lhe "I hope life on Earth is everything you remember it to be". E quando GERTY diz-lhe que, de seguida, tudo voltará ao normal com a ajuda do novo Sam6, Sam5 diz-lhe talvez a linha mais importante do filme:

Gerty, we're not programmed. We're people. Understand?


Imdb: http://www.imdb.com/title/tt1182345/

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Children of Men (2006)

Londres, 2027. Theo Faron (Clive Owen) é um funcionário discreto a viver numa sociedade em desagregação. Há mais de 18 anos que não nasce uma única criança no mundo inteiro. A Humanidade está a envelhecer mas não está a ficar mais calma. O mundo está repleto de enormes problemas sociais e a anarquia só é repelida por uma crescente opressão social.

Theo é contactado pela resistência através de uma velha conhecida, Julian (Julian Moore). Ela precisa de retirar uma pessoa da cidade (já não existe direito de circulação) e pede a Theo que fale com um primo, alguém bem colocado politicamente, para obter os respectivos papéis. Theo acha muito perigoso e recusa, apesar de Julian lhe oferecer 5.000 libras.

Apesar da sua primeira resposta, encontra-se com o primo que vive numa região isolada da cidade e consegue obter os papéis. A certificação de trânsito obriga-o a acompanhar a tal pessoa. Theo, pouco depois, descobre que essa pessoa, Kee (Claire Hope), é uma rapariga. Grávida.

A esterilidade da espécie humana pode ser interpretada como mais uma variante da vingança da Natureza. A Humanidade está a destruir o ecossistema terrestre, a esgotar os seus recursos e a multiplicar-se como um vírus que destrói o hospedeiro. Esta ideia radica na teoria de Gaia: a biosfera do planeta é um organismo. Como os outros organismos possui um sistema imunitário que entra em acção contra os elementos que o perigam. Gaia, na versão Némesis, encontra eventualmente uma forma de erradicar o problema homem. Um exemplo recente (se bem que falhado) é o filme de 2008 de Shyamalan, The Happening, onde são as plantas o veículo dessa resposta. Em outro filme recente, The Road baseado no livro de Cormac McCarthy, vê-se o depois de uma dessas catástrofes não explicada pela narrativa (a morte quase total da vida vegetal e animal enquanto alimento do homem é um pouco sobrenatural). Mais seminal, se bem que localizado numa vila, é a história contada em The Birds de Hitchcock.

Esta infertilidade mundial é um fenómeno mágico, sem explicação científica. Igualmente mágica parece ser a semente de uma nova era: a gravidez de Kee, uma jovem sozinha e inocente no seio daquele caos. A fuga a uma sociedade que ameaça o seu novo estatuto milagroso, possui reflexos no evento único da mitologia cristã que é o nascimento de Cristo. Para reforçar o paralelo, o filme tem uma cena desnecessária onde Theo descobre que Kee está grávida precisamente numa manjedoura...

Outra possibilidade de interpretação (não necessariamente oposta à primeira mas sim complementar) é ver no filme o resultado de uma dinâmica social falhada. O realizador torna bem nítida as diferenças sociais. Quando Theo contacta o corpo dirigente há uma brusca mudança estética, uma tensa acalmia rodeada num silêncio incómodo, o luxo ainda possível de uma civilização a findar, com o David Renascentista e o Guernica de Picasso (aqui, também a metáfora da destruição). Tudo isto, enquanto a imensa massa popular vagueia nas ruas entre a miséria, a apatia, o vandalismo e o terrorismo. Por fim, existe a guarda pretoriana de qualquer ditadura: as forças de segurança que separam os ricos dos pobres nesta crescente caminhada para a anarquia.

Considerando a dinâmica social actual, e o facto do filme se passar na Inglaterra, a terra do liberalismo, esta será uma crítica ao sistema capitalista. Há também uma forte mensagem sobre a imigração e as subsequentes respostas xenófobas ao problema. Se a esterilidade global é o motivo que avança a narrativa, a desagregação social é o pano de fundo que dá profundidade e grande valor crítico a este filme. Existem igualmente pistas sobre a questão da segurança e do preço a pagar por ela (como na cena a relembrar Abu Ghraib no Iraque)

Theo (do grego, deus) é o nosso anfitrião nesta caminhada por uma sociedade que se desintegra. Apesar da violência, ele mantém a esperança numa qualquer civilidade perdida. Comporta-se o melhor possível, dadas as circunstâncias. Há algo nele vindo de um passado que se recusa a morrer. Apesar de testemunhar os arbítrios e violência tanto do corpo dirigente como da força rebelde, recusa a violência, não usa armas, não se deixa contaminar totalmente. A sociedade não tem uma morte igualmente fácil em cada um de nós.

O filme é uma adaptação do realizador Alfonso Cuaron do livro distópico de P. D. James de 1992. Apesar de existem diferenças entre as duas obras, a escritora gostou do filme e disse-se orgulhosa por estar relacionada com o projecto.

Um dos melhores filmes Sci-Fi de 2000-2009.



Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0206634/

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

The Stepford Wives (1975)

The Stepford Wives é um filme híbrido Sci-Fi/Terror passado em ritmo lento num condomínio de luxo supostamente normal. O casal Eberhart está prestes a mudar-se do centro de NY para uma vivenda nos subúrbios, consequência da promoção do marido advogado.

Na primeira cena do filme vemos Joanna Eberhart (Katharine Ross), em silêncio, na casa já vazia. Um espelho que roda e pára na sua face.

Nos olhos alguma hesitação, mas segue-se um inspirar decidido. Fotógrafa, artista por natureza, já com os filhos e à espera do marido, sai do carro para tirar uma última foto a um rapaz que transporta um manequim feminino pela rua. Esta cena é um pequeno piscar de olhos ao tema do filme. Quando o pai chega, Walter Eberhart (Peter Masterson), o filho diz-lhe que viu um homem a carregar uma mulher nua, ao que o pai responde que é por isso que vão para Stepford.

Pouco depois de chegarem à nova casa Walter, no jardim, encontra a vizinha, uma perfeita dona de casa, Carol van Sant (Nanette Newman) que lhes oferece um bolo. Tudo perfeito se não fossem os olhos dela. À noite, Joanna não se mostra convencida com a mudança, apesar da casa maior, da aparente melhor vizinhança, do salário do marido. Parece recear um tédio que se avizinha. Ela não é uma dona de casa mas vê-se sem emprego e parada em casa.

Dias depois, na frente do supermercado, o casal vê a vizinha, van Sant, após um pequeno acidente de carro. A ambulância vem rapidamente e leva-a embora. Só que na direcção oposta ao hospital. Um detalhe que o casal não dá muita importância.

À noite, Joanna acorda sozinha na cama e desce até à sala onde está Walter sentado, com ar desolado. Foi a noite da sua entrada na associação de homens da vila (cuja entrada é reservada só para homens, facto que desagradou a ambos mas que não impediu Walter de nele ingressar). Há nitidamente algo que o olhar dele esconde.

De uma novela de Ira Levin (o primeiro livro de uma trilogia sobre Stepford), o mesmo que escreveu Rosemary's Baby e The Boys from Brazil, que também resultaram em dois bons filmes. O livro original foi adaptado ao cinema por William Goldman (All the President's Men, Marathon Man). Goldman pretendia que fosse uma comédia negra mas a realização final seguiu um rumo diferente (a meu ver, ainda bem). Mas alguém não se deve ter esquecido desta intenção porque o remake, com a Nicole Kidman, foi nesse sentido (não vi este remake, mas pela média e comentários no imdb, não deixou saudades).

A narrativa da comunidade local pacífica que esconde uma realidade terrível, por detrás do seu verniz de normalidade, tem sido usado múltiplas vezes. Por ser particularmente apropriado em seriados, pelo tempo de exposição lento que estes dispõem, foram realizadas várias séries nesta temática. Contam como exemplos o famoso Twin Peaks, The Prisioner ou o recente Happy Town cancelado abruptamente apesar de parecer promissor (e sacrificado à ininteligivel razão da televisão americana). O recente filme The White Ribbon de Michael Haneke é uma excelente exploração, no contexto histórico pré-grande guerra, das estranhas trajectórias das aldeias e dos seus micro-ditadores, sejam eles religiosos ou seculares, quando deixados isolados por muito tempo.

[spoilers] O filme tem igualmente uma forte conotação feminista. De como a subalternização da mulher ainda é possível, gerações passadas depois do esforço e sucesso do sufragismo, onde há decadas que a igualdade de direitos entre géneros está legalmente garantida. Para muitos, a mulher ainda é olhada como a fada (ler serva) do lar e, se a sociedade vai contra este desejo, são possíveis outros caminhos mais subtis para manter uma aproximação do anterior status quo. Neste filme é usada a substituição literal da mulher por um andróide física e sexualmente sofisticado, mas psicologicamente infantil. Uma metáfora da pressão psicológica (por vezes social), muito real, que leva à mesma domesticação de milhões de mulheres. Faz-me lembrar uma cena ocorrida no American Beauty: Allison Janney (a C.J. do West Wing) sentada, imóvel, em silêncio e no imaculado da sua sala, à espera que alguém chegasse. Um poderoso e terrível exemplo de uma pessoa em stand-by.

[spoilers] O tipo de andróides no The Stepford Wives são uma aproximação dos zombies filosóficos defendidos, mais recentemente, por David Chalmers. Seres sem actividade consciente que, apesar disso, são indistinguíveis de um ser humano normal (no caso do filme, isso não acontece totalmente). No Blade Runner ou na nova versão do Battlestar Galactica (obrigatória para um fã de Sci-Fi) este conceito vai tão longe que serve quase de refutação narrativa às experiências mentais de Chalmers (quem tiver interessado em refutações filosóficas, ler Daniel Dennett, por exemplo).

Sejam filosóficos ou não, naturais ou sobrenaturais, terrestres ou extraterrestres, os zombies e amigos correspondem à perda do que somos, à dissolução da nossa personalidade, da nossa mente, o que faz ser o eu. Desaparecemos quando somos substituídos por uma força exterior que se ocupa do nosso corpo, o mais íntimo espaço que temos, seja por doença, magia, possessão ou invasão de ETs. Este, porém, é um medo estranhamente próximo que enfrentamos sob a égide das doenças de Parkinson ou de Alzheimer. Seja como for, deixam-nos como alguém disse, o contrário de fantasmas: só os corpos permanecem.


Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0073747/

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Colossus (1970)

Colossus é um filme relativamente esquecido, do início da década de setenta, dentro da linha Skynet: o computador consciente que, após uns dois milissegundos de reflexão, descobre que os humanos são intelectualmente de uma pobreza franciscana e relativamente dispensáveis.
Ora, um computador pensante é um trabalho de assinalável engenharia e onde é possível falhar de um zilião de formas diferentes. Talvez por isso é que, sem grandes delongas, transferem para ele o controlo do arsenal nuclear para que ponha e disponha do destino da Humanidade. Como nos vários Terminator ou até no Dr.Strangelove de Kubrick, esta estratégia de acção não tende a correr lá muito bem para os personagens do respectivo filme.

Mas estou a adiantar-me.

O Dr. Charles Forbin (Eric Braeden), genial cientista americano, é responsável pelo projecto Colossus: a construção de um computador que faça a gestão do arsenal americano. Inicialmente o projecto era secreto mas, após a sua activação, o Presidente anuncia publicamente a sua existência garantido que agora os EUA e o mundo livre estão protegidos pela superior capacidade de análise e decisão de Colossus. Livre de emoções e inteiramente defensivo, o computador jamais seria capaz de iniciar um ataque aos comunistas mas, se atacado, responderia com eficiência inumana. O enorme sistema foi construído dentro de uma montanha e rodeado de inúmeros sistemas de segurança que garantem que ninguém o pode atacar nem sabotar.

Para ajudar à festa, o computador e o sistema que o suporta são totalmente auto-suficientes. Uma vez iniciado, as portas são fechadas não ficando ninguém dentro da montanha. A forma como comunica com os humanos é através de um centro de comando exterior (onde se desenrola a quase totalidade do filme). Isto é referido numa conferência de imprensa no início (cuja finalidade é expor as regras do jogo mental que se vai seguir). O Dr. Forbin assegura também que Colossus não é capaz de "pensamento independente", ou seja, não tem consciência. Mas é detentor de vasto conhecimento e pode aprender... A conferência termina com uma mensagem de optimismo, desejando uma nova era de paz e desenvolvimento. Toda a gente parece contente, apesar dos seus empregos terem-se tornado obsoletos (não esquecer: é um filme de ficção). O jogo do gato e do rato pode começar. Só falta determinar quem é o gato, o computador ou os humanos, apesar de não ser difícil adivinhar.

O mundo dos computadores é rápido e demora menos de um minuto até aparecer o primeiro problema. Existe um outro sistema. Colossus encontrou outro computador similar! Ah, e é Soviético. Chama-se Guardian, dizem os russos, e também só serve para fins defensivos.

Entretanto, ao mandar executar um protocolo que deveria demorar 1100 segundos, Colossus demora menos de 7. A aprendizagem e optimização do sistema, enquanto todos brindavam a um mundo sem problemas, estava já a desenrolar-se. Logo a seguir, Colossus pede (pede?) para estabelecer comunicação com o sistema adversário. Todos hesitam e evitam responder ao computador. Mas este insiste. Os humanos comandam que o pedido seja apagado e Colossus parece seguir a ordem. Porém, a curiosidade americana leva a melhor e abre-se um canal para os dois sistemas 'conversarem'. Segue-se uma cena muito interessante à lá Carl Sagan: para estabelecerem um protocolo de comunicação, uma linguagem comum, Colossus começa por enviar matemática trivial, a tabuada, e ao fim de uma hora está já a transmitir, a Guardian, teoria matemática até então desconhecida. Assustados, a equipa americana corta a ligação. E, a partir daqui, as coisas começam mesmo a derrapar...

Este filme é uma excelente digressão sobre as consequências da Inteligência Artificial, colocando a questão de forma muito directa: um computador consciente, com recursos suficientes, pode tornar-se milhares de vezes mais inteligente do que é possível com o cérebro do Homo Sapiens, um orgão que evoluiu para sobreviver na savana, não para compreender nem dominar a Natureza. O que nós fazemos com dificuldade, através da cultura, de uma aprendizagem prolongada, um sistema computacional poderia fazê-lo sem dificuldade e a uma velocidade milhões de vezes mais rápido. E não há complexos de paternidade, de origem, que nos protejam de uma mente assim.

O argumento é de James Bridges sendo baseado no primeiro livro de uma trilogia sobre o computador Colossus do inglês Dennnis Feltham Jones (Jones trabalhou na 2ª guerra mundial com computadores, conhecendo o Colossus, o sistema de desencriptação de Alan Turing e companhia em Bletchley Park).

Bridges foi autor de outro argumento de temática nuclear, The China Syndrome, filme famoso pelo impacto na política americana anti-nuclear muito graças ao activismo da actriz Jane Fonda que participou nesse filme, e cuja estreia em Março de 1979 ocorreu pouco antes do desastre nuclear de Three Mile Island.

Imagino que Colossus deverá, em parte, a sua existência ao sucesso de 2001. Também nesse filme o computador, o famoso HAL (a melhor luz vermelha do cinema), é igualmente a personagem central do enredo. HAL sofre uma patologia psicológica que faz divergir as suas 'emoções' para o assassinato da tripulação. Isso não acontece ao Colossus: ele limita-se a seguir uma inexorável lógica utilitária, desprovida de emoções humanas, sim, mas ninguém o pode criticar por isso: ele afinal não é humano.

Está a ser preparado um remake (infelizmente...). Citando a IGN.com:
Will Smith is set to collaborate with director Ron Howard on the forthcoming sci-fi feature The Forbin Project. According to Deadline, the film is a "contemporary Frankenstein story about the world's first sentient computer and the misunderstood genius who gains power over the world because of it." [...] Screenwriter James Rothenberg is apparently adapting, which will make him a busy man as he's just signed up to write a big-screen adaption of The Twilight Zone.
Este género de filmes encerra uma clara analogia à tensão diplomática da guerra fria, quando um conjunto mais ou menos discreto de cargos militares e políticos tinham, nas suas mãos, a destruição nuclear do nosso ecossistema. Felizmente, já vinte anos decorridos do seu término, as coisas não correram assim tão mal.

Moral desta(s) história(s)?
(c) Walt Kelly