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sexta-feira, 4 de março de 2011

The Last Exorcism (2010)

Cotton Marcus (Patrick Fabian) é um padre evangélico que seguiu as passadas do seu pai, cujo futuro passa por herdar a sua igreja e congregação. A profissão de pregador mantém a família de Cotton e é, essencialmente, o que ele sabe fazer desde pequeno.

O pai de Cotton aproveitou o seu filho pré-adolescente para o treinar na arte da retórica religiosa. E, desse modo, Cotton desde os 10, 12 anos, causou bastante furor na comunidade, atraindo e mantendo muitos fiéis seguidores.

Vemos estas imagens e ouvimos os detalhes da família de Marcus através de entrevistas e filmagens documentais. As imagens e sons estão a ser recolhidos por uma equipe de dois cineastas (imagem e som) que acompanham Cotton e conversam com ele. Desde muito cedo no filme que observamos Cotton a ser muito honesto à sua crença no que faz e na sua admissão que está mais perto de uma actor de teatro do que de um mensageiro de fé. Ou seja, ele aceita de forma cândida que é uma fraude, e que vive à custa da incredulidade do seu rebanho. Mais tarde percebemos, graças a uma experiência traumática que o fez mudar de perspectiva, que está determinado a deixar de ser pregador e seguir uma outra profissão.

Mas o objectivo do documentário não é esse. O que a equipe pretende é documentar um exorcismo ao vivo. Cotton e o pai são exorcistas também de profissão e recebem pedidos frequentes de vários locais do estado. Assim, sabemos que, mais cedo ou mais tarde, iremos acompanhar o último exorcismo do pregador Cotton Marcus.


Os filmes de exorcismos têm de viver sobre uma enorme sombra: o filme de William Friedkin, The Exorcist de 1973 é uma obra prima do Terror e um dos melhores filmes do género. Na verdade, foi o seu sucesso tão grande que quase secou esta temática, estando a ser lentamente recuperada, como foi no The Exorcism of Emily Rose de 2005, um filme competente, com boas cenas de exorcismo (mais uma vez de uma rapariga, não há nada a fazer com a avidez dos argumentis..., quero dizer, dos demónios) e com um final muito interessante. Este ano saiu um novo filme, com o Anthony Hopkins, The Rite, que ainda não vi (as críticas não são simpáticas). Bem, também há o Constantine... (mas podem esquecer este).

O género das possessões, que engloba os exorcismos (dado que a cada acto de exorcismo precede uma possessão, pelo menos em princípio), produz mais filmes e não foi tão afectado pelo sucesso d'O Exorcista. Alguns exemplos que vale a pena ver: Rosemary's Baby, The Omen, Audrey Rose, The Amityville Horror, Prince of Darkness, Fallen (um filme subvalorizado na minha opinião) ou Ninja III: The Domination (ok, ok, este foi só pelo título e por ter ninjas mortos com o poder de possuir mulheres!).

[spoilers]

The Last Exorcism é um FakeDoc, ao estilo de muitos outros desde a Bruxa de Blair (já aqui fiz uma lista sobre o assunto). A premissa do filme é bem conseguida e a maioria do enredo não parece muito forçado (talvez pela excepção de não terem chamado a polícia quando podiam). O filme consegue acumular a tensão que se inicia após o falhanço do primeiro exorcismo (que fora executado como farsa por Cotton, que interpretara a possessão da rapariga como um problema psicológico motivado pela clausura social e pressão esmagadora do pai dela).

No filme há uma crítica muito forte, implícita, a todo um tipo de actividade religiosa fraudulenta que usa e abusa da ignorância da multidão. Esta, pouco educada e cheia de superstições sobre demónios, fantasmas ou espíritos, é usada para fazer dinheiro e ganhar influência. Desde as intenções do pai de Cotton de impressionar o seu rebanho com as habilidades do filho (que teria sido visitado pelo Espírito Santo e que lhe dera o dom da palavra de deus de um dia para o outro...), à admissão de Cotton que o seu público engole qualquer coisa que ele lhe diga: logo no início do filme, ele aposta com a cineasta que consegue falar, durante a missa, de gelados de banana sem que ninguém ache estranho, ganhando a aposta e ainda recebendo como resposta uma série de améns.

Também vemos, no primeiro exorcismo na casa dos Sweetzer, os preparativos e os efeitos sonoros que Cotton esconde para impressionar o pai fanático. No enredo do filme, observamos a indústria de fazedores de fé que prospera, incólume, sob a ignorância dos seus fiéis. Na América actual, esta é uma importante mensagem política de um bastante razoável filme de Terror.



Imdb: http://www.imdb.com/title/tt1320244/

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Trolljegeren, aka, The Troll Hunter (2010)

Um grupo de estudantes de cinema vão investigar uma série de mortes misteriosas de ursos para fazer um documentário. Várias pessoas indicam um caçador que todos que é o culpado (Otto Jespersen), alguém que dorme de dia e passa todas as noites fora do parque de campismo. Os jovens tentam perguntar-lhe o que se passa, mas ele nada responde e diz-lhes para se irem embora. O caçador vive num roulote e é muito reservado. O jipe mostra marcas estranhas que não parecem ser de ursos.


Tudo isto estimula a curiosidade dos futuros cineastas e decidem segui-lo quando, de repente, se vai embora. Quando o caçador chega a um novo local, chegada a noite, parte novamente para destino incerto. O grupo segue-o até uma mata isolada e, pouco depois, perde-o de vista. Pouco tempo depois, vêem-no a correr e a gritar «TROLL». Os jovens não o percebem de imediato mas não demora muito tempo para que o grito comece a fazer sentido!




Felizmente, os trolls apesar de serem pró grandinho têm a sua kripnotite, a luz ultravioleta:

[spoilers] Trolljegeren pretende ser um documentário sobre uma teoria da conspiração do estado norueguês para encobrir a existência de populações de trolls, criaturas da lendas nórdicas que afinal têm uma origem factual. Segue um pequeno excerto de um site dedicado aos trolls que descreve um pouco desta mitologia:
In the mountains, of which there were many, lived the trolls. The chief of them all was Dovregubben [Mountain King]. Some of the trolls were extremely large, while others could be really small, and they were all very old. They were only to be seen at night, or at dusk, because such creatures of course did not tolerate the light of day. If they did not get into the mountains before the sun shone they cracked or turned to stone. The trolls were like people, but had only four fingers on each hand and four toes on each foot. Otherwise they all had long noses (troll wives often used their noses to stir the cooking pot when they made soup or porridge), they were shaggy and roughhaired, and every one of them had a tail which resembled a cow's rump.
Claro que o filme é mais direccionado para a Noruega (até os trolls da Suécia, ao que parece, são diferentes) mas o realizador preocupou-se em descrever, com suficiente detalhe, o ciclo de vida destes inesperados animais. Eu não sabia absolutamente nada de trolls excepto o que vi no Lord of the Rings, e não reparei que me faltasse ser norueguês para seguir o filme. Aliás, sendo Otto Jespersen, o caçador, um actor famoso na Noruega, e tendo o filme a participação de vários actores cómicos nacionais, faz com que se perca um pouco do realismo que pretende ser transmitido (teria sido melhor escolher actores anónimos para todos os papéis). Já os não noruegueses não têm este problema.

O filme não se decide entre considerar os trolls como animais sobrenaturais ou naturais. Por um lado, eles cheiram cristãos (!) e o caçador avisa o grupo que nenhum deles pode acreditar em deus e Jesus (efeitos talvez da alergia que ainda provoca a OPA que a Cristandade fez aos deuses nórdicos há uns 1000 anos atrás: certas coisas que não se esquecem...). E de facto, essa alergia cristã existe no filme o que seria um belo desafio para os métodos da ciência. Por outro lado, discute-se que o efeito da luz sobre os trolls é devido a efeitos da radiação sobre o organismo e que blá, blá blá. Claro que esta indecisão pode ser propositada, já que há pessoas (no filme, esse papel é representado pela veterinária) tentariam sempre racionalizar um aspecto mágico num mundo onde não é suposto existir magia (eu incluído).

O filme merece ser visto por quem gosta de Terror e de fake docs mas não é nada de extraordinário. No entanto é sempre bom expandir a galeria de monstros clássicos, porque há algum excesso de vampiros nos media e os lobisomens lamentavelmente são um pouco repetitivos. Seria refrescante ver uns filmes com Gárgulas ou com Golems, por exemplo. Enquanto esperamos deixo a sugestão para verem um clássico seminal do Terror: Der Golem de 1920.

Outra característica porreira do filme é passar-se na Noruega, um país lindíssimo que tive a feliz ideia de visitar graças ao interrail e que um dia hei-de lá voltar (Douglas Adams, o escritor de Hitchhiker's Guide to the Galaxy, refere nesse livro que o designer planetário responsável pelos Fjords ganhou um primeiro prémio pelo excelente trabalho :-)







Imdb: http://www.imdb.com/title/tt1740707/

sábado, 22 de janeiro de 2011

The Killer Inside Me (2010)

O personagem principal deste filme é Lou Ford (Casey Affleck), um rapaz texano, polícia, ajudante de xerife, respeitado numa pequena sociedade do Texas no fim dos anos 40. Não possuindo grande personalidade nem aparente iniciativa, faz as pequenas tarefas policiais que lhe mandam numa cidade já de si com poucos problemas.

Existe uma prostituta a exercer ofício nos arredores da cidade, Joyce Lakeland (Jessica Alba), que ofende o verniz dos bons costumes da sociedade. Quando é enviado para a expulsar, Lou acaba por envolver-se com ela. A relação entre os dois possui traços sadomasoquistas, onde ele exerce o domínio. Adiante no filme, percebemos que esta tendência em Lou deriva de uma experiência sexual da sua pré-adolescência e que, de alguma forma, talvez pelo estatuto social de Joyce, deixa de ser reprimida, começando a desenvolver-se.

À medida que o filme se desenrola percebemos que Lou Ford está envolvido em pequenos esquemas semilegais. Num deles, o principal magnata da cidade, Chester Conway (Ned Beaty), pede-lhe ajuda para que o filho, amigo de infância de Lou, consiga livrar-se da amante, nada mais que a própria Joyce Lakeland. Também percebemos que o meio-irmão de Lou, morto há vários anos, num acidente de trabalho, pode ter sido assassinado a mando de Conway. Isto porque fora acusado e preso por pedofilia por violação de uma menina de seis anos e, uma vez cumprida a pena, voltara para trabalhar na cidade natal. Mesmo assim, Ford aceita ajudar o filho de Conway.

Também conhecemos a namorada de Ford, Amy Stanton (Kate Hudson), uma moça respeitada socialmente, e cujo noivado é eminente.

Uma vez apresentadas as principais personagens nos seus primeiros 30 minutos, o filme passa para a sequência central do filme: o encontro entre Lou, Joyce e o filho de Conway. Este novo acto é inesperado pela violência que retrata (para alguns excessiva mas discordo) desencadeando uma segunda parte mais negra.

[spoilers]

The Killer Inside Me é um thriller sobre o despontar da loucura. Lou Ford é um psicopata em potência que se leva, pela sua fraqueza de carácter, a uma situação onde é obrigado a matar duas pessoas que gostam dele: a amante e o amigo. A partir daí, porque a situação não foi reflectida, não houve um plano (e isto ainda antes da ciência do CSI) ou um álibi pensado, Ford tenta corrigir os seus erros com erros ainda maiores, entrando numa instável espiral de violência. É apenas a pacata natureza da comunidade (onde a boa educação e o respeito são virtudes que nunca se devem perder) e o seu próprio passado de rapaz calmo e pouco inteligente (num mundo que muda pouco, é suposto as pessoas mudarem pouco), que permite que as suas acções cheguem tão longe. Cada vez que Ford tenta reparar um problema, todos os estranhos à sua volta não lhe dão opções, tendo que sacrificar os amigos, aqueles que nele confiam. Só que estes acabam depressa.

O filme é baseado numa novela de 1952 de Jim Thompson que esteve igualmente envolvido nos scripts do The Killing e Paths of Glory ambos filmes de Kubrick. Kubrick referiu-se à novela deste modo: "probably the most chilling and believable first-person story of a criminally warped mind I have ever encountered". A novela fora já adaptada num filme homónimo de 1976 onde Lou Ford foi representado por Stacy Keach (Prison Break, ER).

Todo o filme passa-se na perspectiva de Lou Ford e, de certa forma, dentro da sua interpretação da realidade. Tudo parece suspeitar dele, o que não pode corresponder inteiramente à verdade, tendo em conta o que ele foi capaz de fazer antes de ser descoberto. As duas mulheres, a amante e a noiva, gostam demasiado dele (para alguém que parece não gostar muito delas), os homens ou confiam ou desconfiam em excesso. Não parece haver meio-termo na realidade vista pelos olhos de Ford. Talvez seja essa a razão pelo filme conseguir fazer o espectador manter alguma empatia por este personagem desprezível. Não conseguimos deixar de ser testemunhas da sua realidade.

Um reparo final para Simon Baker (o Patrick Jane do The Mentalist). A sua personagem, um polícia dos Assuntos Internos, é praticamente idêntica à do mentalista, demasiado moderna para a época. Quase parece ter viajado no tempo, 60 anos para o passado, para investigar os assassinatos deste filme...

Um bom filme de 2010 subvalorizado pelo público.


Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0954947/