Mostrar mensagens com a etiqueta 2009. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2009. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Moon (2009)

O astronauta Sam Bell (Sam Rockwell: The Assassination of Jesse James, Heist, The Green Mile) encontra-se estacionado na Lua. Sozinho, num contracto privado de três anos pela Lunar Industries, mantém em funcionamento uma estação de recolha de Helium 3, o novo petróleo do século XXI.

A estação é praticamente automática e é gerida por um computador, GERTY (voz de Kevin Spacey: Se7en, American Beauty). Sam está lá para lidar com situações exteriores (os robots não parecem estar muito desenvolvidos) nomeadamente na recolha do He3 das máquinas que o extraem do solo lunar.


O trabalho de Sam é crítico mas com a repetição e o acumular do tédio, ele torna-se desatento, passa demasiado tempo em piloto automático. Os únicos momentos de contacto emocional ocorrem quando fala com a sua mulher Tess (Dominique McElligott) por videoconferência, mas mesmo assim em diferido, devido a uma avaria nos satélites de comunicação que impedem um diálogo entre os dois (situação que a companhia não parece muito interessada em resolver). Sam consegue lutar um pouco contra uma eventual situação depressiva por já faltar poucas semanas para o fim do contrato. GERTY é uma presença constante no dia-a-dia de Sam, sendo um pouco supervisor, colega e amigo.

Entretanto, o sistema avisa-o que uma das máquinas avariou-se e é necessário ir ao local resolver o problema. Só que Sam acaba por provocar um acidente e vê-se preso no meio da superfície lunar.



Fade out. Fade in.

Sam está de volta à estação lunar, deitado, ainda inconsciente. Quando acorda, GERTY informa-o de um acidente, mas ele diz-se amnésico. Como chegou ali?

Duncan Jones escreveu e realizou este excelente filme de Sci-Fi. Para mim, Moon, está no meu Top 10 de SciFi desta primeira década (bem, talvez não seja preciso muito para estar lá, mas possivelmente está no Top 5). Considerando o facto que é o seu primeiro filme, deixa-nos com grande expectativa para a sua próxima realização do género, o filme Source Code a estrear em 2011 (cf. trailer).

Moon é um filme de meios de produção relativamente simples. O orçamento de 5 milhões, em 2009, é quase nada para Hollywood. Infelizmente, só fez 10 milhões nos cinemas, o que também é quase nada e, a meu ver, é completamente inexplicável. O filme é Sam Rockwell, comprovando a sua qualidade de actor, sendo bem coadjuvado pela voz de Spacey. A banda sonora de Clint Mansell é competente apesar de estar a anos-luz das suas incriveis bandas sonoras para os filmes The Fountain e Requiem for a Dream ambos de Darren Aronofsky. Os efeitos especiais são muito seguros, muito contidos, mas muito bonitos. Nunca se viu uma superfície lunar tão bela.

[spoilers]

Já nos assuntos que toca, Moon é muito interessante.

O principal assunto do filme, a meu ver, é a questão dupla da personalidade e da identidade. A questão dos clones força-nos a reflectir sobre o que é ser eu, o que fundamentalmente podemos dizer que é único em nós. Dois clones possuem o mesmo ADN (ok, também os gémeos monozigóticos). Mas neste filme, os clones possuem a mesma personalidade e as mesmas memórias referentes a um dado momento da sua história pessoal. Quando Sam4 (o Sam do início do filme) acordou, ele era igual ao Sam5 quando este acordou. Aqui a coisa fia mais fino. O que faz a diferença entre Sam4, Sam5 e o Sam1, o Sam original? É verdade que foi o Sam1 que casou com Tess, que experimentou as memórias que os clones partilham, que foi formado e recebeu treino de astronauta. Mas alguém não pode ter menos direitos, ser considerado inferior, meramente pela qualidade das suas memórias. Que garantias temos nós da qualidade das nossas? É sabido que as memórias são uma ficção continuamente trabalhada pela mente, e o que achamos ter vivido vai perdendo correspondência com que aconteceu de facto. A nossa memória é, em si, um teatro, uma ficção trabalhada pela mente para limar os defeitos e derrotas e fazer sobressair virtudes e vitórias. Não podemos definir um ente consciente e racional (e os clones de seres humanos são seres humanos) pelo seu passado mas sim pelas suas capacidades cognitivas. O principal filme que foca esta questão é, claro, Blade Runner (onde a igualmente pequena esperança de vida dos andróides faz também aí reforçar esta problemática).

A empresa do filme, mantém em regime de escravidão, um conjunto de pessoas que partilham uma personalidade inicial. Faz-me lembrar a velhinha Wesley-Yutani mas trocando os aliens por clones (o Ridley Scott está por todo o lado!). Esta actividade, nos ecos do fim do filme, percebe-se que é ilegal levando a empresa a defender-se legalmente e a perder dinheiro. A experiência que esta actividade igualmente imoral nos dá, é observar como a nossa ideia de personalidade é fluida. Gostamos de nos ver como um bloco mais ou menos constante que atravessa a vida. Mas, é muito provável que deixássemos de pensar assim se pudéssemos falar com nós próprios há 10 ou 20 anos atrás. Sam4 é irascível, está cansado, perdeu toda a paciência que Sam5, mesmo agora renascido, possui. As condições externas -- principalmente a solidão que Sam4 carrega -- mudam-nos, por vezes, de uma forma brusca e violenta. Uma pessoa não é tanto função de uma invariante psicológica mas sim de uma trajectória que evolui com o tempo e com as circunstâncias. E, creio, o filme cria-nos uma situação para que possamos presenciar isso mesmo.

Falta GERTY. Este software, e qualquer outro no universo dos filmes, terá sempre de viver à sombra do conhecido HAL 9000 (este filme faz-nos lembrar 2001 por isso, como pela solidão, perigo e indiferença do espaço). Mas neste caso, GERTY é o psicólogo que não se torna o psicopata de serviço. GERTY parece possuir emoções esquemáticas, deixando-se convencer por Sam em ultrapassar alguns dos protocolos que era suposto obedecer. GERTY toma a decisão de acordar a versão seguinte de Sam, Sam5, mas o filme não fornece informação suficiente para explicar essa iniciativa. GERTY parece estar a justificar-se à central quando Sam5 quase o surpreende. Lembrar que Sam acha que é impossível comunicar directamente com a terra por avaria dos satélites, e qualquer comunicação entre o GERTY e a empresa é um acto perigoso para a estabilidade emocional do clone de serviço. Ou seja, é admissível que GERTY tenha desenvolvido uma ligação emocional com os diversos clones que acompanha. Se Sam4 era o 4º clone, então este processo já teria, pelo menos, 12 anos (e o serão 12 anos para uma máquina que realiza ziliões de operações por segundo?). Quando Sam5 combina com GERTY que irá reiniciar a sua programação, para GERTY não se lembrar do que aconteceu (e não se ver forçado a dizer o que aconteceu), GERTY não discorda, aceita que é um passo necessário para que o seu amigo seja salvo. GERTY diz-lhe "I hope life on Earth is everything you remember it to be". E quando GERTY diz-lhe que, de seguida, tudo voltará ao normal com a ajuda do novo Sam6, Sam5 diz-lhe talvez a linha mais importante do filme:

Gerty, we're not programmed. We're people. Understand?


Imdb: http://www.imdb.com/title/tt1182345/

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Valhalla Rising (2009)


These followers of the white Christ.
Bastards.
A much travelled man once told me that they eat their own God.
Eat his flesh, drink his blood.
Abominable.
One-Eye (Mads Mikkelsen) é um escravo de uma tribo de Vikings, durante o período de cristianização da Escandinávia (c. ano 1000 AD). É considerado tão perigoso que o tratam como o Hannibal Lecter, com correntes e amarrado por cordas, entre a sua jaula e o local do combate. Apenas um rapaz se aproxima dele, para lhe trazer comida, para o lavar e para desamarrá-lo antes da luta.
Sendo um excelente lutador, o chefe da tribo usa-o para ganhar dinheiro em lutas mortais, que One-Eye vence sempre.

Quando surge uma oportunidade, One-Eye consegue soltar-se e mata todos da escolta, excepto o rapaz que a partir daí o acompanha, sendo a sua voz no resto do filme (One Eye não fala, talvez seja mudo, talvez nada tenha para dizer).

Após um tempo de viagem, encontram um conjunto de Vikings cristãos que se preparam para viajar numa cruzada para a Terra Santa de Jerusalém. One Eye decide acompanhar o líder dos cruzados, seja pelas suas visões proféticas, seja pelas palavras que ouve:

We're more than flesh and blood.
More than revenge.
All of these things go.
You should consider your soul.
That's where the real pain lies.

O acto seguinte passa-se num barco, numa viagem mais mística que real. Por entre um nevoeiro infinito, onde o tempo, a fome e sede, o desespero atravessam os cruzados que se julgam já perdidos apesar da sua fé.

Finalmente, o barco sai do nevoeiro e chega a terra. Só que não é a Terra Prometida que se lhes depara, mas o Novo Mundo. E mesmo no Novo Mundo há erros antigos que sempre se podem repetir...

O realizador e argumentista dinamarquês Nicolas Winding Refn, depois do muito interessante Bronson, mais um vez releva-se como mais do que uma promessa do cinema do norte da Europa. Totalmente diferente de Bronson, Valhalla Rising é um filme fora do comum, silencioso, com imagens magníficas. A acção é lenta e demorada mas não aborrecida, há uma gestão do silêncio muito bem feita que destaca o pouco que é dito (o monólogo que começa este post é uma das maiores falas do filme). A Natureza e o mistério da fé são enormes, relegando os homens, miseráveis e ignorantes, à sua insignificância. O próprio personagem principal do filme não abre a boca uma única vez (bem, excepto quando é para morder adversários). As paisagens, repito, são belíssimas e acompanham de forma perfeita a travessia mais espiritual que geográfica de One Eye.





Valhalla Rising, na segunda parte do filme, faz-me lembrar Aguirre de Herzog na fotografia do The New World de Mallick. Inclui uma crítica à arrogância dos auto-proclamados arautos da cristandade (mais uma vez, como em Aguirre) e uma reflexão sobre as consequências do fanatismo. E tudo isto com Vikings! O que é possível querer mais de um filme?


Imdb: http://www.imdb.com/title/tt0862467/